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quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Guardar

Guardar, guardar, guardar...

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la,
isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela,
isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que de um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar

Antônio Cícero

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Hoje e Amanhã


Vejo pela janela
A chuva que cai
Na pulsação da lágrima
Que me escorrega à maçã

Vejo um céu nublado
Numa cor que se iguala
À cor do meu coração
É a dor de amar e ao fundo
O canto mórbido da razão

Ouço o assovio triste dos pássaros
Que lamentam minha respiração
Assim como a minh’alma
Que se cansa da inutilidade
E da falta de vazão

Eu funciono ao isolamento
Do meu ser infinito
No finito da dor
Enquanto minh’alma derrete
Pelo ácido sabor do seu amor

Mas meu terapeuta sou eu,
Enquanto escrevo, me converso
Enquanto me falo,
Em silêncio me escuto
À procura de mim mesmo

Hoje eu desmancho ao vento
Pela mais intensa sensibilidade
Amanhã me reconstruo
Com a mais profunda força e coragem

Hoje eu me amarro no sabor de te amar
Como alguém que deseja a escravidão
Amanhã vejo que não sou para isso
E levanto vôo com as asas da libertação

E sem ajuda de rainhas ou princesas
Sem nenhuma culpa ou dor nesse meu
Doce-amargo coração
Pois é chegada a vez da razão

Ananda Souza

Antes de qualquer comentário, quero primeiro agradecer ao Universo por esse dia ter chegado mais uma vez, por me oferecer tudo que tenho e fazer de mim um uma pesssoa feliz. Agora vamos lá:

Hoje, 22 de dezembro, é o meu aniversário. Fiquei a escolher um poema que representasse algo relacionado a isso e acabei escolhendo esse. O nome dele é um dos elementos mais importantes desse poema, pois sugere uma mensagem que acho fundamental: tudo passa se eu quiser que passe! Hoje posso estar mal, mas amanhã posso levantar, só depende de mim. Escolhi pensar nesse dia com os pés mais no chão, com essa consciência de que eu posso passar o que passar, mas logo estarei refeita de novo. E é por isso que vale a pena viver cada dia, mês, ano de nossas vidas. Mas por que não nos reinventar... SEMPRE?!

Outro momento do poema que acho fundamental para a vida é: "Eu funciono ao isolamento/ do meu ser infinito/ No finito da dor" Sim, superamos a finitude da dor por que somos seres infinitos. Não há dor que nos destrua, mas nós sim somos capazes de destruí-la.

Isso é o que vou levar para os próximos anos, enquanto eu viver.

Feliz natal, próspero ano novo e que o Universo traga luz para todos nós!



Planeta Terra




Uma série de coisas tem me incomodado nesse mundo. Sinto que esse mundo é bem diferente do que estou acostumada a viver. Aqui no Brasil, por exemplo, se fala com seriedade sobre a proteção à democracia, mas ela não existe, nunca existiu, aqui é assim, é super natural sustentar coisas que não existem, porque o que existe de fato lá eu chamaria de “demo-hipocrisia”. Sim, povos e líderes, todos hipócritas. Parece que já está incorporado na cultura deles. Um vai sustentando o outro.

Aqui, é inacreditável, têm pessoas que não se tratam mais pelo que são, porque muitas delas se consideram mais que outros, como se elas não fossem também seres humanos, entende? Choram, riam, adoecem, sonham, são fortes, mas têm fraquezas também, mas se comportam como se fossem diferentes dos demais. Elas vão pela premissa de quem tem mais poder. E também divulgam certas pessoas como seres superiores, e ainda temos aqui, espectadores que acreditam nessa fantasia e a sustentam.

Aqui tem coisas absurdas, hábitos que eu não sei como conseguem manter. Aqui tudo está contrário, se você for sincero, se você for honesto demais você é apedrejado, criticado. Aqui as pessoas estão tão contaminadas com a questão econômica que ser muito franco é sempre sinal de interesse, de querer aparecer. Aqui não dá para ser sincero. Aqui a mentira é perdoada e a verdade é condenada, as pessoas não querem mais ouvir a verdade, elas querem sustentar é a mentira.

Achei engraçado é o que eles chamam de evolução. Aqui tudo que é autodestrutivo é por que é evolutivo. As pessoas daqui acham que a ciência que serve para algumas coisas que traga resultados financeiros é sinal de evolução, sem se importar com as conseqüências. Não importa se vão destruir a eles mesmos, eles só querem o tal do dinheiro. Eu não consegui entendê-los ainda, por que tanto dinheiro se nunca será o suficiente para recuperar toda destruição? E eles acreditam mesmo que estão evoluindo...

E a diversão deles? As crianças lá não brincam mais, mas elas falam que brincam. É incrível! Elas ficam na frente do computador, ou num vídeo game, alguma coisa que as deixam a maior parte do tempo dentro de suas casas. Os pais querem sempre manter os filhos dentro de casa. Não por que os querem presos, mas porque a procura por esse tal de dinheiro ficou tão violenta que andar livremente é sinônimo de arriscar a vida. Ainda tem mais essa! Lá quem se sente livre é o criminoso, e os homens de bem vivem pensando e criando maneiras de se proteger, perdendo a liberdade.

Não sei não, não entendo como eles conseguem viver ali, me senti totalmente inadequado. Eu vou voltar de onde eu vim...

De quem não quer ser um evoluído assim,



ET.


via Ananda Souza

Para refletir um pouco sobre os rumos do nosso mundo...

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

E o futuro da Música Brasileira? E agora, José???




Depois de tantas notícias que li relacionadas à Marina Lima, um monte de reflexões me vieram. Não relacionadas diretamente aos episódios divulgados ou às coisas que foram ditas por ela e para ela, mas uma visão que vai além disso, voltada para o todo, para um lado mais social. Então, vou mais adiante...

A primeira lembrança que me veio foi a da razão instrumental de Adorno e uma matéria que li falando um pouco sobre o assunto e relacionando à moderna sociedade industrial:

“A razão se transformou em dominação e, no campo da arte, é domada pela indústria cultural. Sob o controle desta, a obra de arte transforma-se em objeto padronizado, desprovido de conteúdo, subordinado ao primado do lucro, da produção e distribuição racionais. Seu efeito é, basicamente, provocar distração, "entretenimento", impedindo o surgimento de um pensamento crítico ou uma consciência verdadeira.”

Se analisarmos a obra de Marina Lima ao que foi dito, em nada se enquadra. Dizer que a obra dela não há conteúdo ou que impede um pensamento crítico seria um crime, mas ao ler isso pensei na “situação Marina/CQC”. Este demonstra ser um programa de humor tendencioso, patrocinado por quem briga pela ideologia na visão, conceitualmente falando, de Karl Marx, ou seja, falseada para atender interesses dessa classe. Não só politicamente (quando demonstra suas insistentes críticas ao atual governo, mas esse já é outro assunto...), mas também artisticamente - do qual quero focar agora.

Nada melhor que transformar a cabeça das pessoas em “bolhas de ar”, aliená-las e transformá-las em estupidez e vazio, quando se tem o objetivo citado anteriormente: “impedindo o surgimento de um pensamento crítico ou uma consciência verdadeira” e para quem objetiva isso, não faz o menor sentido abraçar qualquer arte que envolva uma expressão crítica e consciente, como a de Marina, por exemplo.

O resultado de tudo isso, fazendo referência mais diretamente à música, está por todos os lados. A cultura da mídia massificada está matando a música brasileira. Tudo aquilo que tem conteúdo está sendo sufocado por tudo que é fútil e alienador (como a matéria bem se referiu à indústria cultural: “Seu efeito é, basicamente, provocar distração, "entretenimento", impedindo o surgimento de um pensamento crítico ou uma consciência verdadeira.”).

São muitos os exemplos, muitos “Creus” e “Piriguetes” da vida. A alienação chegou a tanto, e sempre disfarçada, que as mulheres estão se colocando no lugar de produtos de baixo valor, e assim se manifestam ao dar suas nádegas para que passem o cartão de crédito (para rir ou chorar?).

Para os artistas de hoje, tanto os que já construíram sua história quanto os que estão começando a construir, percebo que o grande desafio é conseguir balancear uma arte conceitual, útil e crítica dentro de uma atual cultura de massificação, sendo que esta anda de mãos dadas com a superficialidade, futilidade e inércia mental, pois procura mesmo e a qualquer custo o LUCRO.

Acontece que tanto se procura o lucro que o tiro caminha para sair pela culatra. Mais uma vez, o atual sistema caminha para suicidar-se como na crise de 29, na atual e tantas outras crises resultantes de uma ganância extremista. Tanto se procura o lucro que, em se tratando de música, o Brasil que é tão rico, caminha para uma cultura musical cada vez mais pobre.

Diante disso tudo nos vêm uma série de questionamentos: O que fazer? Rende-se à cultura de massa ou compra briga com ela? Isso é possível ou é utopia? Continuando assim, aonde vamos parar? O que será de nós sem Marina Lima, Gal Costa, Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Marisa Monte e toda essa turma que construiu a boa imagem de nossa arte na música? Sobrarão somente uns ‘gatos pingados’ reféns dessa atual “cultura”?

Acredito que o Brasil está em um momento mais que oportuno, mas sim necessário para fazer nascer um novo, digamos, ‘Movimento Artístico Popular’. Música nas escolas é um bom começo e devemos exigir, mas não acho que seja o suficiente.

Enfim, diante dessas reflexões, a única certeza que tenho é que precisamos fazer alguma coisa para mudar essa realidade e salvar o futuro musical do nosso país.

Alguma sugestão?


Uma luuuuuuz!!!


Ananda Souza

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

__________A Dialética da Vida

A vida é feita de momentos
São só momentos...
Que seguem como um pêndulo

Como se fossem chuvisco,
Que abre alas à tempestade
Que logo se dispersa
E dá lugar ao sol

Seguem assim nossos momentos
Que se transformam, vão e voltam
Nesse movimento sempre pendular
Tudo pra nos renovar

São leis, querida, leis!
Por que tudo é movimento
Tudo apodrece,
Renasce e cresce

E desse ciclo ninguém foge
Ninguém escapa das garras da vida
Ninguém sai da terra
Sem a alma mais evoluída

Então se entregue e ande!
Procure conhecer a vida o quanto antes
Pois nada se deixará passar
De nada adiantará tuas lágrimas rolar

domingo, 14 de setembro de 2008

05:55, concluo...




Já começo a ouvir o canto dos pássaros
E como são espertos,
Como despertam com virilidade...!
Eu queria ser um pássaro...

A tonalidade do céu começa a mudar
Como se o branco
estivesse a invadir o breu lentamente
Gota a gota...

A temperatura está amena
O tempo não tem mais o sabor de inferno que senti
Pouco antes de me deixar molhar,
antes de, teoricamente, ir dormir...

Os raios de sol começam a atravessar
Por entre as folhas das árvores
E a invadir meu espaço pelas rótulas,
Como se deste fossem donos...

A música me guia por todo esse trajeto noturno
E permanecerá em qualquer turno...
"enquanto não durmo..."
E a chuva lá fora não chove de fato, mas aqui chove...

E, pra não perder o hábito nas minhas noites de insônia,
Fico aqui a escrever sem rumo...
"eu não me acostumo com a falta de rumo..."
Mas ela sempre reaparece...

05:55, concluo...
É preciso fazer as pazes...
Com o mundo...
Então pra quê dormir agora...?
Agora já era, o mundo me espera!

Ananda Souza




Esse poema tem alguns versos da letra dessa canção que sempre me desperta inspirações:




Tempestade




[Enquanto não durmo]
Enquanto te espero
E chove no mundo
[Eu não me acostumo, não
Com a falta de rumo,] brasileiro
E esse tom de desespero
Que atingiu nosso amor

A tempestade me assusta
Como sua ausência
Você, raio humano, despencou
Na minha cabeça
E desde então
Grita esse trovão
No meu peito

[A chuva lá fora, chove de fato]
Enquanto a sua ausência, inunda meu quarto
E transborda na cama
Agora eu entendo, meus sonhos são outros

Eu penso no homem que dorme nas ruas do Rio
E agora flutua nos rios da rua
Os barracos à beira do abismo
Deslizam no cinismo da Vieira Souto
Meus sonhos são outros

(Zélia Duncan e Christian Oyens)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

A MURALHA (de Berlim)


Cansei-me da razão
Cansei-me de não sentir
Nem mesmo frio
Apesar de já imersa
Num íntimo abaixo de zero
Que mora em mim

Cansei-me de estar assim
Como uma muralha
Eu agora quero ser
O Muro de Berlim

Por que o escudo é covarde
Ele defende,
mas partindo do princípio
do viver isolado da humanidade

E eu quero o ar universal
pra respirar
E não fazer de mim um suicida
em vida, um egoísta

Eu quero meu corpo fervendo
Eu quero o mundo e seu amor
Eu quero um coração batendo
Quero viver vivendo
Sentindo a dor se preciso for

Eu quero amor saindo pelos poros
Mesmo que seja sinônimo
de sobreviver no amargor
Eu quero o convívio de todos
Relações com alma, não só com corpo

Hoje é o dia do equilíbrio, do meu
O dia de um eu mais malabarista
Na corda bamba da vida
Hoje é o dia do risco, do amor e da dor

Pois se amor está mesmo ligado à dor
Eu prefiro dar as mãos
ao sadomasoquismo
a viver com esse coração tão frio

Que me fira, que me torture
Que me doa, que me mate
Por que hoje estou abrindo as janelas
Para a luz do sol
E que me perfure os olhos com ardor
Desde que seja com amor


Ananda Souza

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Pensamentos Soltos





E começo com a música "O Que Eu Também Não Entendo" de Fernanda Mello e Rogério Flausino que diz: “ESSA NÃO É MAIS UMA CARTA DE AMOR, SÃO PENSAMENTOS SOLTOS TRADUZIDOS EM PALAVRAS PRA QUE VOCÊ POSSA ENTENDER O QUE TAMBÉM NÃO ENTENDO.”

Meu coração agora lateja, uma vontade de garatujar o que a alma profere e a boca não descreve; o som em mim se injeta, fala de amor partilhado e também amor singular, fala de nordeste, de saudades, de Francisca, fala de amor longínquo, fala de acontecimentos não consumados, de espera; e tudo isso me vasculha, procura algo como um verme inquieto e permanece num estado tão igual a uma agulha perdida no oceano, minha essência. E que mar é esse, e que coisa é essa que essa musicalidade procura em mim? E faz nascer a coragem de buscar o desconhecido.

Quanto mais me procuro, mais me acho, mas mais vejo que preciso me encontrar, e vejo que não consigo ver, apesar de já ter me visto tanto. E tantas vezes me vi e me alegrei, noutras vezes chorei, outras me desconheci, não acreditei...

E cada vez mais aprendo que sou a maior descoberta de mim mesma, e vivo numa invasão que nunca acaba, com um mistério sempre por desvendar e uma curiosidade tão infinita de saber o que sou, de que sou feito, o quanto valem os meus pensamentos, pra que servem as minhas ideologias, e de que vale a superfície da alma. não! não existe alma rasa a meu ver, só existe um corpo que guarda a alma. É disso que falo, e de que vale? Parece valer tanto, mas é mesquinho demais. Mas não acredite em mim, eu já valorizei a superfície também. Pareço entender o por quê, mas finjo não saber (se é que entendo mesmo), a superficialidade é um vício, um vírus, o mundo, e que nele me incluo, está contaminado.

Porque é mais fácil viver na superfície a nos aventurar nas descobertas do nosso ser infinito, é mais fácil seguir um ritual, um todo mundo igual, é mais fácil, muito mais fácil aceitar o que o lençol d’água nos mostra a ir ao fundo do mar e nos arriscar sufocar; mas não, não diga que sei tudo porque eu não sei a verdade, nem sei se ela existe, nem sei se acredito que tudo que escrevo é a verdade, eu sei que não sei nada, o que posso afirmar é que sei o que me deixa melhor( e nem sempre), mas hoje vejo a minha verdade como aquilo que me faz bem, e que bem danado tu me fazes, porque essas melodias com esses adornos, palavras, me dão a coragem de mergulhar no meu mar e despertam em mim a curiosidade de entender os teus sinais, os dele, os daquele e, principalmente, OS MEUS.

Isso tudo porque há em mim uma mente fingida, dissimulada, que tenta convencer-se de que aceita andar só sobre as águas, a mais desnaturada mentira, pois no fundo bate o pé para quebrar toda a vidraça que cobre as águas por onde deseja mergulhar. E qual a razão de tudo isso? Vaidades? Pode ser, “eu minto também...”

E sigo sinais...

“Quando você sentir minha canção fugir, amor, por trás tudo tem um fim.” E eu só quero permanecer assim, como agora, a procura da finalidade nas coisas, na essência das pessoas, finalidade de nossas nobrezas e pobrezas, de nossas crenças, quero procurar até assistir o final de tudo, mesmo não crendo na existência de um fim.

Termino com uma frase de um poeta Modernista, Mario de Andrade:
“Estou cético e cínico. Cansei-me de idéias terrestres.”
Ananda Souza


Esse texto é só mais um momento meu de busca. Como sempre digo:
"A vida é uma constante procura por respostas certas, eu procuro, logo vivo..." (Ananda Souza)

domingo, 22 de junho de 2008

Quero


Quero encontrar quem nunca vi
Quero voltar pra um lugar que não sei
Quero sentir uma plenitude que nem creio
Não quero a culpa do que não tenho

Quero um lugar que me sinta afável
Quero a abundância da ausência de falta
Quero meu coração preenchido de amor
Quero a alma límpida de dor

Quero a luz do sol e o ar
Quero asas pra voar
Quero a capacidade de saber amar
Quero no mundo algo digno de se confiar

Quero sentir prazer até na cor das flores
Quero sentir a beleza onde quer que eu voe
Quero as ondas do mar, transpassar
Como quem nos teus braços fosse mergulhar

Quero ver a pureza num olhar
Quero saber se vale à pena a um ser humano amar
Quero sentir a segurança que me escapa
Quero sentir a independência escassa

Então vou a seguir viagem nos dedos da mulher das estrelas
E refugio-me por entre as cordas que arquitetam a sua voz
E me abrigo no arco de luz dos acontecimentos
Que só me chamam, me chamam, me chamam...
Até os abismos de um mundo à meia voz

Ananda Souza

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Norte




Por mais que diga:
Eu sei o meu norte!
Você vem com um jeito manso
E me desnorteia
E me desvia, e me leva, e traz
Pra onde tu pensas que devo ir?

Pro sul onde tu ficas
Pro oeste onde me abrigas
Para o leste onde me instiga
Enrijeço e grito: norte!
É pra lá que vou seguir

Mas acontece que,
Por mais dura que eu venha a ser,
Não adianta correr,
Eu dou sempre de cara com você

Norte, sul, leste ou oeste
Por terra, céu ou mar
Eu sei, em qualquer lugar
Eu vou te encontrar
Até mesmo aqui dentro
Com esse espelho diante de mim.

Como o reflexo da água
Como a sombra que o sol me traça
Não há como fugir
Vejo você (sempre) diante de mim
Ah, esse tal de amor
Sempre tão ditador...

Esse consegue desarmar
Qualquer conceito imposto pela razão.
Por mais rígido que pareça,
Não tem "durão" que não se derreta.
Não tem quem prevaleça
A repetir com a mesma firmeza
Aquele primeiro não.
Ananda Souza
Após ler uma música nova de Marina Lima chamada ‘Às Ordens do Amor’ me veio a inspiração do último verso dessa poesia em resposta ao tópico criado na comunidade do Orkut dela para tal música. Daí decidi terminar a poesia, ou melhor, começar, pois eu comecei pelo final (rs). Mostrei a um amigo, Victor Loback, que gostou muito e adotou como uma de suas preferidas, pedi então que ele escolhece o nome da letra, achei o nome escolhido perfeito. Taí, ‘Norte’ pra quem curte! Beijos para todos.[:)]

A música que me inspirou:

Às vezes eu choro
Pra poder lembrar de mim
Às vezes eu rio
Assim
Se bem que eu sorrir, não é raro
Mas é raro é pedir
Àquela pessoa pra nunca se distanciar
de uma história que muda a cada despertar
Por isso vim pedir, frisar
Pois sempre as suas redes vão poder guardar
Os sonhos e os planos de amar
Engraçado como
A vida se encarregou
De lentamente mostrar quem é que comanda o show
Toda a mobília, os discos, a cor
Em todos os domínios de onde venho e vou
estão às ordens do amor
Me leve pra lua
Que eu também vou te mostrar
Que estamos à altura das imagens que compõem o ar
São edifícios, são céus
Que arranham os domínios cheios de calor
À espera das ordens do amor


Marina Lima

Poética I e Poética II

Poética I

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.


A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
– Meu tempo é quando.



Poética II


Com as lágrimas do tempo
E a cal do meu dia
Eu fiz o cimento
Da minha poesia.


E na perspectiva
Da vida futura
Ergui em carne viva
Sua arquitetura.


Não sei bem se é casa
Se é torre ou se é templo:
(Um templo sem Deus.)


Mas é grande e clara
Pertence ao seu tempo
– Entrai, irmãos meus!



Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes é um dos meus poetas preferidos, se não for o preferido! O que mais gosto é que ele escreve de forma clara e objetiva, exatamente da maneira que mais me identifico. Essa maneira reflete muito o meu jeito de ser. "Nós escrevemos o que somos, não dá pra fugir disso!" (Ananda Souza). Acredito com toda plenitude nessas palavras. Deixo, então, duas poesias dele que gosto muito.



quinta-feira, 10 de abril de 2008

______________O Fado


Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar...
Soluçam ais estranhos de guitarra...
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar...


Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar...
E o canto vai subindo e vai morrendo
Num anseio de saudade a palpitar!...


É o fado. A canção das violetas:
Almas tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi uma agonia!


Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito seja tu! Ave-Maria!...


Florbela Espanca (livro: Trocando Olhares)



Hoje ela é uma das violetas, é o fado que ela escolheu...
Florbela Espanca sempre viu a vida tendo como base só o amor, e sempre viu o amor que só pode ser sofrido. Mostrou-se sempre com um temperamento visceralmente insatisfeito:

" O meu talento! De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha apaixonado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!" (Florbela Espanca).

Florbela Espanca morreu em 1930, aos 36 anos de idade; na verdade, o suicídio da mesma nunca foi provado por mais que se tenha tentado justificar até mesmo pelo motivo da morte do irmão Apeles; muitas campanhas difamatórias circulanvam em torno da poetisa na época. O testemunho decisivo do padre Nuno Sanches diz o seguinte:

"Como sarcedote católico, sei o que a igreja estabelece para os suicidas; como coadjutor da paróquia (de Motasinhos), no cemitério da qual foi inumada a poetisa Florbela Espanca, sei que o seu enterro foi feito religiosamente, assim como o fora antes o seu casamento. Para o enterro religioso não foi pedido nenhuma dispensa ou autorização especial às autoridades eclesiásticas, o que exclui, portanto, essa tal hipótese, que tenho por caluniosa e tanto mais reprovável quando se trata de alguém que não pode defender-se."

Pra finalizar, minhas considerações pessoais: Gosto de algumas poesias de Florbela, como esta que coloquei, mas não me identifico muito com o estilo dela; que não é nada mais nada menos que o estilo de vida que ela tinha, que ela escolheu, com suas crendices e tudo mais. Estilo este, totalmente diferente do meu. Uma coisa que encontrei em comum foi :"( uma alma) que sente saudade... sei lá de quê!".
Nós escrevemos o que somos, não dá pra fugir disso!

(comentários de Ananda Souza)





_________________Eu



Quem sou eu?
Eu sou o paradoxo na sua frente
Eu sou o ser que ninguém entende
O anjo e o diabo em forma de gente

Eu sou a romântica mais racional
Eu sou os dois lados de cento e oitenta graus
Eu sou a inconstância natural
Mas vivo a sinceridade, fundamental!

Eu sou o: "Tudo bem,
Se você quer assim..."
Mesmo querendo ser o:
"Volta pra mim!"

Eu sou um ser humano...
E o desumano!
Eu sou um ser sem dó nem piedade
Sou o seu pior pesadelo
Ou aquilo que chamam de felicidade

Sou o contrário do avesso
Sou o largo e o estreito
O avesso do contrário,
o estreito do largo...?

Sou a jóia mais rara
E a menos procurada
E seja eu amada ou odiada
E que me olhes sorrindo ou "atravessada"
Nada me atinge, minha cara

Ananda Souza
A última frase foi a única mentira que disse nesse poema sobre mim.

Ela


Ela tem me tirado dos teus braços,
Que nunca me abraçaram,
Mesmo sem eu querer

Ela tem me afastado de ti,
Com você já distante de mim,
Me dando o que nunca de ti recebi



Ela tem me amado
E eu me odiado
Por ainda amar a ti

Ela tem se lembrado
E você, esquecida,
Nem lembra mais de mim

Ela tem me soltado
E eu ainda presa aqui
Com o pensamento em ti

Ela tem me cercado
Por todos os lados
E você nem aí

Ela tem conquistado
Todo o espaço
Que eu deixei pra ti

Ela tem curado
Todos os machucados
Que você deixou em mim

Ananda Souza

terça-feira, 8 de abril de 2008

Essência é Riqueza




Chora minh'alma
Afoga-te na água
Da tua própria essência
Te descobre e te rejeita
Oh, que surpresa!
Você é sua própria presa.

Debata-te, recusa-te
Odeia-te, confronta-te
E no fim do combate
Te mata e descobre
Que você não morre

Permanece viva, atenta
Sai da tua guerra
Sem nenhuma diferença
E lamenta:
Ainda sou a mesma

A mesma forte e fraca
Valente e covarde
Então, anda! Renda-se!
Perca e vença
Te entrega a ti mesma
A tua derrota é a tua riqueza

Ananda Souza

O Teu Perdão


Me perdoe, mãe amada
Mas eu sou assim
Nem eu me quero
Mas acho que tu, minha mãe
Ainda me queres

É por teu amor que mais sofro
Que me debato
Que vivo esse conflito
Será que tu me queres mesmo assim?

As lágrimas agora
Rolam no meu rosto
Eu sinto no peito
A fraqueza por tanto lutar
Lutar contra mim mesma

Eu juro, eu juro
Que não queria
Eu juro, eu juro
Que não posso mais
Que não há mais forças pra lutar...
Comigo!

Ananda Souza
Essa poesia tem uma importância muito grande pra mim, por muito tempo chorei relendo-a, e chorei pela última vez lendo-a pra minha mãe. Hoje a vejo como demonstração de uma tempestade que já passou. Como diz G.Gil: "a paz invadiu o meu coração!"

Entre Quatro Paredes



Se fico feliz
Ou se choro
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes do quarto

Se te odeio ou te amo
Se penso em tudo
Ou decido não pensar em mais nada
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes do quarto

Se planejo, se sonho
Se renovo ou perco as esperanças
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes do quarto

Se me aceito me odiando
Se me engulo chorando
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes do quarto

E por falta de opção
Por não haver outra solução
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes desse quarto

Ananda Souza

Questionamentos


Como sentir saudade
De quem não me é conhecido?
Como sentir a falta
De quem nunca esteve comigo?

Como te amar
Se nem sei quem és ao certo?
Como sentir a perda
De quem nunca esteve por perto?

Como sentir-me sozinho
Sem nunca ter te visto?
Como sentir frio
E ao mesmo tempo aquecido?

Como dizer adeus
Pra quem nunca cruzou meu caminho?
Como sentir que és meu
Mesmo sem crer em destino?

Como ter certeza que conquisto
Sem ao menos saber se és comprometido?
Como abrir um caminho
Até as respostas que preciso?


Ananda Souza

Sinto saudades...
De quê, de quem, de onde? Não sei!

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O Comprador de Rosas


Fui até aquele senhor
Dono da maior floricultura
Que cheguei a encontrar
Pedi a ele rosas
Que representassem
O tamanho do meu amor

A quantidade, ele perguntou
E eu pedi a ele
Aquela que expusesse
O quanto amor eu dou

Mostrou-me então um vaso
Dentro dele quatro rosas
E sorrindo disse a ele:
É muito pouco meu senhor!

Mostrou então um buquê
Nele duas dúzias
De rosas desabrochadas
Cheirosas, fartas
Ainda é pouco meu senhor!

Mostrou-me todo o acervo
Que pudesse encontrar
Na sua enorme floricultura
Mesmo assim é pouco pr'o meu amor

Levou-me a imensos campos
Com as mais belas rosas
Mostrou-me nos quatro cantos do mundo
E percebi que era o nosso Senhor

Mostrou-me rosas na estufa
Ainda por desabrochar
Mostrou-me todas as rosas
Que Ele veio a criar
E me disse:
Todas elas ei de te entregar

Naquele momento eu senti
Que por mais que eu ande
E por mais que compre
Todas as rosas
De todos os campos
Dos quatro cantos
Não conseguirei expressar
O glorioso dom de te amar

E se mesmo assim entrego-te rosas
Saiba que não ouso jamais,
Através delas, meu amor te demonstrar
Mas sim o faço na insistente tentativa
De um sorriso teu ganhar

Ananda Souza

_____________De Presente


Meu presente vou te dar
Pela cintura te puxar
Tua boca carnuda beijar
Vou te deixar sem ar
Um mês sem poder falar

E se vier a reclamar
Não vou nem ligar
Foi mau, não foi pra contrariar
Vou dar as costas e sair de lá

Mas se ela viesse a gostar...

Do beijo iria continuar
Minhas mãos escorregar
Toda nua te deixar
Fazê-la se arrepiar

Água com açúcar? Nem pensar!
Melhor com sal pra excitar
E a minha sede aumentar

Nos teus seios mergulhar
À sua boca retornar
E um forte abraço pra encerrar

Ananda Souza

Um tanto sensual, gosto de coisas assim também... rs.

Arretado!


Uma coisa mais Cordel...

Não vem falar do meu nordeste
Que eu te esgano, sua peste!
Te jogo o salto, mando bala
Implodo o mundo, enfio a faca

Não brincando, seu sacana!
Rodo a baiana, pernambucana, paraibana
Chamo o meu povo
E tome cana!

Não vem com onda
Não enche o saco
Não pra papo
Vou te ferrar

Tua língua, vou arrancar
Pra besteira não mais falar
Os teus dentes vou quebrar
E nem adianta me segurar

No meu nordeste ninguém tasca
Senão eu quebro a tua vidraça
Tomo as dores, sou do mato
De um povo unido e educado
Mas não pise no meu calo
Que eu te capo feito um gato

Ananda Souza

Pra começar, não precisa ficar com medo. Sou mansinha... mas nem sempre,hein!rs.
Quis nesta colocar características lingüísticas bem típicas da região nordeste; mas não só isso, mostrar também um pouco do temperamento e os sentimentos de um nordestino que, apesar dos pesares, ama sua terra. Procurei também deixar claro a permanência de um clima bucólico.

Vinte Anos de Armadura

Aqui dentro é só
Só o meu lado externo
Aqui é quente, é frio
Aqui é úmido e seco

Desconfortavelmente começo...
Vou a despir-me
Os sapatos de aço
O escudo e o peitoral

É pesado o descaso
Um fardo nos ombros
O descontentamento da alma
E o permanente cansaço

Eis a armadura
Que usei por vinte anos
Tão dura e tão frágil
Essa armadura de aço oxidado


Ananda Souza



"Eis a armadura/ Que USEI...". Na verdade eu fiz uma alteração no tempo do verbo destacado (de USO para USEI) para que a poesia se adequasse ao meu presente.

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