
Uma Carta a um Professor: Pensamento I
Não vejo em mim, nem ao meu redor, nem no meu estado a ausência de idéias, porque eu presenciei os ideais, senti na pele e vi a ideologia tomando as pessoas, escorrendo pelo suor de seus corpos e pela saliva de suas bocas a cada nova caminhada. Não, elas não estavam ali para eleger candidato “X”, elas estavam ali fazendo uso de seus ideais, apenas para mudar um exercício político que permanecia já há tempos ali, e que faliu nosso estado nos colocando em posição vergonhosa e de exemplo de atraso perante o país. Muitos estavam desanimados até com o candidato escolhido para esse momento de transição, inclusive eu, mas havia um ideal, e isso era maior.
O que movia esse povo era o que move qualquer ser humano, o desejo, a vontade de construir uma realidade diferente, no nosso caso, daquela que já viviamos há 40 anos. O ser humano tem o direito de acreditar e tentar mudar, dando certo ou não no final é preciso TENTAR. E esse povo só tentou porque acreditou na sua idéia.
Diante de toda essa história percorrida, me diga professor, como me sentir convencido de que já estamos no hipermodernismo? O máximo que posso admitir é que estamos no pós-modernismo, pois ainda vejo no agora o que tu chamas de “resquício do moderno” (que é a sobra do ideal existente no período moderno, um período de grandes teorias), pois eu tenho sabido, visto e ouvido ações populares levadas por causa desses “resquícios”.
Mas o que mais me indigna, perdoe-me a sinceridade, é essa sua calma quando falas do hipermodernismo como algo já plenamente presente na sociedade, deixando a entender, assim, que é natural não ter idéias, ser um alienado, fazendo com que seus alunos não sintam nenhuma culpa pelo fato de ser um “cabeça de vento”, afinal todos já são assim e eles são apenas mais um; e pior, com a sua maneira de falar, você me deixa acreditar que VOCÊ também se considera mais um, como todos os outros.
Tudo bem, cada um que faça o que quiser do seu próprio cérebro, então me perdoe a irritação, mas é algo que não consigo evitar, pois pregar isso tudo, para mim, é o fim. Só me parece um discurso disfarçado de intelectual do próprio sistema em que vivemos para levar as pessoas a pensar que ser um retardado hoje em dia é totalmente natural e bom, para, dessa forma, diminuir a resistência social e abrir caminhos para se tirar proveito político, social e, principalmente, econômico.
Eu não sei o que o senhor pensa de fato, mas se tu condenas essa postura hipermoderna, fale disso demosntrando que abomina, condenando isso e não como alguém que acha tudo isso é super natural e que já até faz parte desse processo.
Um abraço mental conflituoso,
Ananda Souza
P.S.: Sempre quando falo de idéias, quero denotar o sentido de desejo de mudança do homem, que é sempre levado a isso por sua natureza insaciável e não por acreditar em um ideário, propriamente. Digo isso porque não acredito que o homem transforma baseando-se apenas em uma ideologia, mas sim porque segue o seu próprio desejo, principalmente quando já se vê à beira do abismo. Afinal, se a ideologia fosse o principal fator que motivasse à transformação, o conflito de classes pregado por Karl Marx, por exemplo, teria iniciado na Inglaterra e não na Rússia. O proletariado inglês tinha consciência de seu lugar reprimido dentro da sociedade e a idéia de Marx, mas os russos estavam na mais plena miséria e, por isso, o desejo de mudança foi maior e fator decisivo para as conseqüentes ações. O desejo se faz maior que a idéia, ou seja, a idéia é apenas a conseqüência do mais profundo desejo.
Uma Carta a um Professor: Pensamento II
Caro professor,
Volto a te escrever com as desilusões nas costas, com um coração que, ao ver a realidade, despedaçou-se, mas com os pés mais no chão. A ventania da realidade tem desmanchado no ar tudo aquilo que parecia ser sólido, as máscaras sociais e políticas têm caído e me enterrado nesse chão sem boas perspectivas. Agora sinto na alma que a teoria é diferente e, muitas vezes, o oposto do que acontece na prática.
Direitos, democracia, poder do povo, voto, ideologias diversas, tudo tem escorrido como lava quente por entre os dedos das mãos e é assim que o mundo tem nos empurrado para esse chão hipermoderno. Admitir isso me doeu desde o princípio, e tu bem sabes disso, mas não dá mais para viver preso a ilusões.
Eu creio que não te entendi porque percebo que você já aprendeu o que agora preciso aprender. Preciso aprender a ser indiferente com o mundo para conseguir aturá-lo um pouco mais, coisa que tu, acredito eu, já deve ter sentido como estou sentindo agora. Vou conseguir? Isso parece ser sinônimo de não mais acreditar na humanidade... e eu tenho estado descrente dela.
A estrutura é naturalmente anti-humanista e auto-destrutiva. Como haver solução se, sendo um sistema anti-humanista, o ser humano será sempre uma espécie condicionada por algo maior que ele? Como seres condicionados a uma estrutura, e esta sendo naturalmente destrutiva, como impedir nossa própria destruição? Não, não sei mais se há solução.
Agora me vejo obrigado a me individualizar, mas para isso preciso aprender a ser indiferente a essas imperfeições do mundo. Cada vez mais preso ao meu ser indivíduo, alienadamente sabedor de que esse meu ser indivíduo não influencia o todo, que não faz a menor diferença nele, mas que parece a única maneira de conseguir respirar por aqui. Individualizar-se, então, se torna uma necessidade para garantir a sobrevivência, mesmo sendo, contraditoriamente, sinônimo de suicídio, afinal, mesmo dentro desse conjunto de sociedades, o que tem nos restado é construir nossas vidas individualmente, mas esperando que algo maior que não controlamos faça a desconstrução.
Ananda Souza
Monólogos dedicados ao psiquiatra, doutor e professor Eduardo Riaviz que, mesmo sem intenção, sempre me faz refletir.