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quinta-feira, 10 de abril de 2008

______________O Fado


Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar...
Soluçam ais estranhos de guitarra...
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar...


Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar...
E o canto vai subindo e vai morrendo
Num anseio de saudade a palpitar!...


É o fado. A canção das violetas:
Almas tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi uma agonia!


Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito seja tu! Ave-Maria!...


Florbela Espanca (livro: Trocando Olhares)



Hoje ela é uma das violetas, é o fado que ela escolheu...
Florbela Espanca sempre viu a vida tendo como base só o amor, e sempre viu o amor que só pode ser sofrido. Mostrou-se sempre com um temperamento visceralmente insatisfeito:

" O meu talento! De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha apaixonado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!" (Florbela Espanca).

Florbela Espanca morreu em 1930, aos 36 anos de idade; na verdade, o suicídio da mesma nunca foi provado por mais que se tenha tentado justificar até mesmo pelo motivo da morte do irmão Apeles; muitas campanhas difamatórias circulanvam em torno da poetisa na época. O testemunho decisivo do padre Nuno Sanches diz o seguinte:

"Como sarcedote católico, sei o que a igreja estabelece para os suicidas; como coadjutor da paróquia (de Motasinhos), no cemitério da qual foi inumada a poetisa Florbela Espanca, sei que o seu enterro foi feito religiosamente, assim como o fora antes o seu casamento. Para o enterro religioso não foi pedido nenhuma dispensa ou autorização especial às autoridades eclesiásticas, o que exclui, portanto, essa tal hipótese, que tenho por caluniosa e tanto mais reprovável quando se trata de alguém que não pode defender-se."

Pra finalizar, minhas considerações pessoais: Gosto de algumas poesias de Florbela, como esta que coloquei, mas não me identifico muito com o estilo dela; que não é nada mais nada menos que o estilo de vida que ela tinha, que ela escolheu, com suas crendices e tudo mais. Estilo este, totalmente diferente do meu. Uma coisa que encontrei em comum foi :"( uma alma) que sente saudade... sei lá de quê!".
Nós escrevemos o que somos, não dá pra fugir disso!

(comentários de Ananda Souza)





_________________Eu



Quem sou eu?
Eu sou o paradoxo na sua frente
Eu sou o ser que ninguém entende
O anjo e o diabo em forma de gente

Eu sou a romântica mais racional
Eu sou os dois lados de cento e oitenta graus
Eu sou a inconstância natural
Mas vivo a sinceridade, fundamental!

Eu sou o: "Tudo bem,
Se você quer assim..."
Mesmo querendo ser o:
"Volta pra mim!"

Eu sou um ser humano...
E o desumano!
Eu sou um ser sem dó nem piedade
Sou o seu pior pesadelo
Ou aquilo que chamam de felicidade

Sou o contrário do avesso
Sou o largo e o estreito
O avesso do contrário,
o estreito do largo...?

Sou a jóia mais rara
E a menos procurada
E seja eu amada ou odiada
E que me olhes sorrindo ou "atravessada"
Nada me atinge, minha cara

Ananda Souza
A última frase foi a única mentira que disse nesse poema sobre mim.

Ela


Ela tem me tirado dos teus braços,
Que nunca me abraçaram,
Mesmo sem eu querer

Ela tem me afastado de ti,
Com você já distante de mim,
Me dando o que nunca de ti recebi



Ela tem me amado
E eu me odiado
Por ainda amar a ti

Ela tem se lembrado
E você, esquecida,
Nem lembra mais de mim

Ela tem me soltado
E eu ainda presa aqui
Com o pensamento em ti

Ela tem me cercado
Por todos os lados
E você nem aí

Ela tem conquistado
Todo o espaço
Que eu deixei pra ti

Ela tem curado
Todos os machucados
Que você deixou em mim

Ananda Souza

terça-feira, 8 de abril de 2008

Essência é Riqueza




Chora minh'alma
Afoga-te na água
Da tua própria essência
Te descobre e te rejeita
Oh, que surpresa!
Você é sua própria presa.

Debata-te, recusa-te
Odeia-te, confronta-te
E no fim do combate
Te mata e descobre
Que você não morre

Permanece viva, atenta
Sai da tua guerra
Sem nenhuma diferença
E lamenta:
Ainda sou a mesma

A mesma forte e fraca
Valente e covarde
Então, anda! Renda-se!
Perca e vença
Te entrega a ti mesma
A tua derrota é a tua riqueza

Ananda Souza

O Teu Perdão


Me perdoe, mãe amada
Mas eu sou assim
Nem eu me quero
Mas acho que tu, minha mãe
Ainda me queres

É por teu amor que mais sofro
Que me debato
Que vivo esse conflito
Será que tu me queres mesmo assim?

As lágrimas agora
Rolam no meu rosto
Eu sinto no peito
A fraqueza por tanto lutar
Lutar contra mim mesma

Eu juro, eu juro
Que não queria
Eu juro, eu juro
Que não posso mais
Que não há mais forças pra lutar...
Comigo!

Ananda Souza
Essa poesia tem uma importância muito grande pra mim, por muito tempo chorei relendo-a, e chorei pela última vez lendo-a pra minha mãe. Hoje a vejo como demonstração de uma tempestade que já passou. Como diz G.Gil: "a paz invadiu o meu coração!"

Entre Quatro Paredes



Se fico feliz
Ou se choro
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes do quarto

Se te odeio ou te amo
Se penso em tudo
Ou decido não pensar em mais nada
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes do quarto

Se planejo, se sonho
Se renovo ou perco as esperanças
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes do quarto

Se me aceito me odiando
Se me engulo chorando
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes do quarto

E por falta de opção
Por não haver outra solução
Faço tudo completamente só
Entre as quatro paredes desse quarto

Ananda Souza

Questionamentos


Como sentir saudade
De quem não me é conhecido?
Como sentir a falta
De quem nunca esteve comigo?

Como te amar
Se nem sei quem és ao certo?
Como sentir a perda
De quem nunca esteve por perto?

Como sentir-me sozinho
Sem nunca ter te visto?
Como sentir frio
E ao mesmo tempo aquecido?

Como dizer adeus
Pra quem nunca cruzou meu caminho?
Como sentir que és meu
Mesmo sem crer em destino?

Como ter certeza que conquisto
Sem ao menos saber se és comprometido?
Como abrir um caminho
Até as respostas que preciso?


Ananda Souza

Sinto saudades...
De quê, de quem, de onde? Não sei!

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O Comprador de Rosas


Fui até aquele senhor
Dono da maior floricultura
Que cheguei a encontrar
Pedi a ele rosas
Que representassem
O tamanho do meu amor

A quantidade, ele perguntou
E eu pedi a ele
Aquela que expusesse
O quanto amor eu dou

Mostrou-me então um vaso
Dentro dele quatro rosas
E sorrindo disse a ele:
É muito pouco meu senhor!

Mostrou então um buquê
Nele duas dúzias
De rosas desabrochadas
Cheirosas, fartas
Ainda é pouco meu senhor!

Mostrou-me todo o acervo
Que pudesse encontrar
Na sua enorme floricultura
Mesmo assim é pouco pr'o meu amor

Levou-me a imensos campos
Com as mais belas rosas
Mostrou-me nos quatro cantos do mundo
E percebi que era o nosso Senhor

Mostrou-me rosas na estufa
Ainda por desabrochar
Mostrou-me todas as rosas
Que Ele veio a criar
E me disse:
Todas elas ei de te entregar

Naquele momento eu senti
Que por mais que eu ande
E por mais que compre
Todas as rosas
De todos os campos
Dos quatro cantos
Não conseguirei expressar
O glorioso dom de te amar

E se mesmo assim entrego-te rosas
Saiba que não ouso jamais,
Através delas, meu amor te demonstrar
Mas sim o faço na insistente tentativa
De um sorriso teu ganhar

Ananda Souza

_____________De Presente


Meu presente vou te dar
Pela cintura te puxar
Tua boca carnuda beijar
Vou te deixar sem ar
Um mês sem poder falar

E se vier a reclamar
Não vou nem ligar
Foi mau, não foi pra contrariar
Vou dar as costas e sair de lá

Mas se ela viesse a gostar...

Do beijo iria continuar
Minhas mãos escorregar
Toda nua te deixar
Fazê-la se arrepiar

Água com açúcar? Nem pensar!
Melhor com sal pra excitar
E a minha sede aumentar

Nos teus seios mergulhar
À sua boca retornar
E um forte abraço pra encerrar

Ananda Souza

Um tanto sensual, gosto de coisas assim também... rs.

Arretado!


Uma coisa mais Cordel...

Não vem falar do meu nordeste
Que eu te esgano, sua peste!
Te jogo o salto, mando bala
Implodo o mundo, enfio a faca

Não brincando, seu sacana!
Rodo a baiana, pernambucana, paraibana
Chamo o meu povo
E tome cana!

Não vem com onda
Não enche o saco
Não pra papo
Vou te ferrar

Tua língua, vou arrancar
Pra besteira não mais falar
Os teus dentes vou quebrar
E nem adianta me segurar

No meu nordeste ninguém tasca
Senão eu quebro a tua vidraça
Tomo as dores, sou do mato
De um povo unido e educado
Mas não pise no meu calo
Que eu te capo feito um gato

Ananda Souza

Pra começar, não precisa ficar com medo. Sou mansinha... mas nem sempre,hein!rs.
Quis nesta colocar características lingüísticas bem típicas da região nordeste; mas não só isso, mostrar também um pouco do temperamento e os sentimentos de um nordestino que, apesar dos pesares, ama sua terra. Procurei também deixar claro a permanência de um clima bucólico.

Vinte Anos de Armadura

Aqui dentro é só
Só o meu lado externo
Aqui é quente, é frio
Aqui é úmido e seco

Desconfortavelmente começo...
Vou a despir-me
Os sapatos de aço
O escudo e o peitoral

É pesado o descaso
Um fardo nos ombros
O descontentamento da alma
E o permanente cansaço

Eis a armadura
Que usei por vinte anos
Tão dura e tão frágil
Essa armadura de aço oxidado


Ananda Souza



"Eis a armadura/ Que USEI...". Na verdade eu fiz uma alteração no tempo do verbo destacado (de USO para USEI) para que a poesia se adequasse ao meu presente.

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