
Corre a noite, de manso num murmúrio,
Abre a rosa bendita do luar...
Soluçam ais estranhos de guitarra...
Oiço, ao longe, não sei que voz chorar...
Há um repoiso imenso em toda a terra,
Parece a própria noite a escutar...
E o canto vai subindo e vai morrendo
Num anseio de saudade a palpitar!...
É o fado. A canção das violetas:
Almas tristes, almas de poetas,
Pra quem a vida foi uma agonia!
Minha doce canção dos deserdados,
Meu fado que alivias desgraçados,
Bendito seja tu! Ave-Maria!...
Florbela Espanca (livro: Trocando Olhares)
Hoje ela é uma das violetas, é o fado que ela escolheu...
Florbela Espanca sempre viu a vida tendo como base só o amor, e sempre viu o amor que só pode ser sofrido. Mostrou-se sempre com um temperamento visceralmente insatisfeito:
" O meu talento! De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha apaixonado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!" (Florbela Espanca).
Florbela Espanca morreu em 1930, aos 36 anos de idade; na verdade, o suicídio da mesma nunca foi provado por mais que se tenha tentado justificar até mesmo pelo motivo da morte do irmão Apeles; muitas campanhas difamatórias circulanvam em torno da poetisa na época. O testemunho decisivo do padre Nuno Sanches diz o seguinte:
"Como sarcedote católico, sei o que a igreja estabelece para os suicidas; como coadjutor da paróquia (de Motasinhos), no cemitério da qual foi inumada a poetisa Florbela Espanca, sei que o seu enterro foi feito religiosamente, assim como o fora antes o seu casamento. Para o enterro religioso não foi pedido nenhuma dispensa ou autorização especial às autoridades eclesiásticas, o que exclui, portanto, essa tal hipótese, que tenho por caluniosa e tanto mais reprovável quando se trata de alguém que não pode defender-se."
Pra finalizar, minhas considerações pessoais: Gosto de algumas poesias de Florbela, como esta que coloquei, mas não me identifico muito com o estilo dela; que não é nada mais nada menos que o estilo de vida que ela tinha, que ela escolheu, com suas crendices e tudo mais. Estilo este, totalmente diferente do meu. Uma coisa que encontrei em comum foi :"( uma alma) que sente saudade... sei lá de quê!".
Nós escrevemos o que somos, não dá pra fugir disso!
(comentários de Ananda Souza)
(comentários de Ananda Souza)
Nenhum comentário:
Postar um comentário